‘O rio está passando por dentro da nossa sala’: os relatos da chuva que parou o Rio de Janeiro

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Adriana Souza Mendes

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Adriana Souza Mendes passou todos os seus 49 anos de vida nesta casa; metade da construção foi levada pela enchente

Em seus 49 anos de vida morando na mesma casa, Adriana Souza Mendes nunca tinha visto o rio que separa seu terreno do parque do Jardim Botânico chegar ao muro de sua casa.

Com o temporal que desabou na segunda-feira no Rio de Janeiro, o curso d’água subiu tanto que derrubou o muro, e depois lambeu e carregou na correnteza metade da residência. Foram embora a cozinha, seu quarto, sua cama, a cama da filha, o armário de roupas, o armário de louças.

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A casa ficou partida ao meio, com a churrasqueira usada em tardes de lazer ainda intacta, e os pertences que Mendes conseguiu salvar da cozinha espalhados do lado de fora.

Na terça-feira, a cidade amanheceu em estado de crise, tentando lidar com as perdas e danos causados pela chuva que caiu com volume e velocidade incomuns para a época.

Chega a sete o número de mortes causadas pelo temporal. Duas irmãs morreram soterradas após um deslizamento no Morro da Babilônia, no Leme, zona sul da cidade. Outros três corpos foram encontrados em um táxi na Ladeira do Leme, onde um deslizamento soterrou carros.

Pela manhã, enquanto a cidade buscava entender a escala das perdas, Adriana caminhou pelo Jardim Botânico para tentar juntar pedaços de sua casa.

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Destroços foram parar no meio de rio após enchente na zona sul do Rio de Janeiro

Espalhados pelo parque fundado por Dom João 6º em 1808, encontrou duas camisas do marido, uma calça, o pote de ração do cachorro e um maiô da filha. Ainda mais longe, na rua Pacheco Leão, um vizinho encontrou um capacete de moto flutuando e o trouxe de volta para seu marido.

“A ficha ainda não caiu. Vamos esperar a chuva passar para ter uma noção do que podemos fazer. Só espero que consiga pelo menos refazer um pedaço da minha casa e continuar. Minha história está toda aqui”, diz Adriana, ainda sem saber como reconstruir a vida estando ela e o marido desempregados.

Adriana, o esposo, a filha adolescente e os três cachorros foram temporariamente para a residência de sua sogra, a poucas casas de distância. O imóvel alagou, como os outros da vizinhança, mas continua de pé.

A família mora na comunidade do Horto, área adjacente ao parque composta originalmente por residências de antigos funcionários do parque. Os terrenos são alvo de uma disputa de décadas com o Jardim Botânico do Rio. Mordores buscam sua regularização fundiária, mas são ameaçados de remoção.

“Eles já queriam tirar a gente daqui. Acho que agora vão ver como uma boa oportunidade”, teme. “Vão falar ‘está vendo, era área de risco’. Mas isso nunca foi área de risco.”

Prefeito na berlinda

O terceiro grande temporal do Rio neste ano acirra a pressão sobre o prefeito Marcelo Crivella (PRB), que sofre fortes críticas por cortes de gastos com drenagem urbana e manutenção das encostas e pela falta de preparo da cidade para enfrentar chuvas e enchentes, que estão longe de ser uma novidade.

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Patrícia Nobrega e Bi Ribeiro na frente da casa onde moram: ‘O rio passa por dentro da nossa sala e sai pela porta principal’

Por volta das 20h, Crivella disse em entrevista à TV Globo que havia enviado “20 homens” para as ruas de toda a cidade para resolver incidentes como bolsões d’água. Já na manhã de terça-feira, ele admitiu que faltou pessoal nas ruas e que a prefeitura terá de mudar o protocolo de operação previsto para essas situações.

“Teremos que ter reboques, pessoal da conservação e da Comlurb esperando previamente nesses locais”, disse o prefeito, afirmando que já havia constatado a necessidade dessa ação em chuvas anteriores. “Infelizmente, não fomos prudentes para fazer agora”, disse.

Durante o temporal, a prefeitura acionou 45 sirenes em 26 comunidades – mas não no Morro da Babilônia, onde duas vítimas morreram soterradas. O órgão demorou a fechar o Túnel Rebouças, via crucial da cidade onde motoristas passaram mal durante horas de engarrafamento, respirando monóxido de carbono proveniente dos carros.

As cobranças aumentam o desgaste do prefeito, que enfrenta um processo de impeachment aberto há uma semana pela Câmara dos Vereadores e deve apresentar sua defesa na próxima semana. O processo tem base em denúncia de irregularidades na postergação de um contrato municipal autorizado por Crivella.

A sala virou mar

No Jardim Botânico, um dos bairros mais afetados, foram 311 milímetros de chuva entre meio-dia de segunda e o mesmo horário na terça – o equivalente a quase toda a chuva que caiu no bairro no mês de março -, segundo o Alerta Rio. O volume formou rios caudalosos descendo por ladeiras como na rua Lopes Quintas, arrastando carros, pedras, terra, blocos de concreto, e abrindo crateras pelo caminho.

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Maria Leitão Bruno recebe orientações da Defesa Civil; a casa onde ela mora foi interditada, atravessada por um rio

Apesar de o volume de chuva ter diminuído na terça-feira, o fluxo de água não parou de descer por ruas do Horto, parte do Jardim Botânico que fica no pé da da Floresta da Tijuca. Os morros verdes costumam tornar o local um recanto bucólico e sossegado na zona sul, mas com a chuva formaram trombas d’água que invadiram casas construídas sob a encosta, rompendo muros de contenção de terrenos e forçando novos cursos d’água passando por janelas, salas e escadarias.

“O rio está passando por dentro da nossa sala e saindo pela porta principal da casa”, descreve o músico Bi Ribeiro, baixista da banda Paralamas do Sucesso, morador do Horto.

Sua esposa, a jornalista Patrícia Nóbrega, estava em casa fazendo jantar para os dois filhos adolescentes quando a lama começou a invadir a cozinha. De repente a porta começou a tremer com a pressão da água que vinha de fora.

Patrícia correu com os filhos para o segundo andar e escutou a porta se romper, enquanto via a água subir do lado de fora. A empregada doméstica, que estava no primeiro andar, já não conseguia mais sair de seu quarto, e Patrícia começou a gritar por socorro. Vizinhos e um bombeiro acabaram vindo resgatar todos.

“A nossa casa acabou”, diz, abrigada temporariamente em um prédio da vizinhança, mostrando fotos da residência com lama até a janela. “Parecia que a gente estava em um barco. A água enchendo a casa, tudo quebrando, os móveis nadando”, descreve.

Suspeita de danos por desmatamento

Moradores do Horto ouvidos pela reportagem da BBC News Brasil acusam de “descaso” a prefeitura do Rio e desconfiam que os efeitos da chuva tenham sido agravados pela capinagem recente da mata recobrindo parte da encosta, que está sendo preparada para receber um novo campus para o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).

A vegetação cortada do terreno teria sido arrastada pela chuva, entupindo dutos que escoam riachos por debaixo de casas e prédios – fazendo com que esses cursos d’água, com seu volume multiplicado, encontrassem novos caminhos.

Foi o que aconteceu na casa de Andrea Maria Bruno, que mora do lado da mata e viu a água começar a entrar por sua janela. A correnteza empurrou os móveis para a porta, fechando-a antes que Andrea conseguisse sair. Ela ficou com o braço preso para o lado de fora, enquanto o nível da água subia. Foi salva por vizinhas e operários que trabalhavam em uma obra na rua.

“Nossa casa está cheia de lama. Perdemos tudo”, diz sua mãe, Maria Augusta Leitão Bruno, de 76 anos. Por sorte, ela e o marido, Getúlio, 79, não estavam lá durante o temporal.

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Priscila Accioly está abrigada na casa de uma amiga após a escada da vila onde mora virar uma cachoeira

Um riacho que vinha da mata era canalizado e passava sob a casa de Andreia, mas o duto entupiu, e agora um rio atravessa sua casa e corta a vila de cinco casas em que mora, formando uma cachoeira incessante na escadaria, e impedindo que ela e outros moradores voltem.

“Esse é o único caminho que a água agora tem para passar”, lamenta Priscila Accioly, moradora da vila. Na segunda, ela resolveu deixar sua casa pouco mais de uma hora após o início da chuva, e se deparou com uma enxurrada do lado de fora, ouvindo os gritos de socorro de Andrea. “O barulho era o mesmo que estar dentro de uma cachoeira”, descreve.

Em nota, o Impa afirmou que não houve remoção de árvores do terreno de sua propriedade no bairro, apenas de vegetação rasteira, e que contratou empresa especializada para fazer limpeza do capim do terreno nas últimas semanas, “para realizar testes geológicos e sísmicos para construir barreiras de contenção”. “O Impa cumpre rigorosamente todas as exigências dos órgãos municipais para obter a licença de obra, que ainda não foi iniciada”, diz o instituto.

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