Não adianta ter acordo se não tivermos competitividade, diz ex-embaixador do Brasil nos EUA sobre pacto com UE

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Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro em reunião do G20Direito de imagem
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Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro em reunião do G20

O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE), anunciado na tarde da sexta-feira (28/06), não servirá de muita coisa se o Brasil e a região não conseguirem melhorar sua competitividade.

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A opinião é do diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Londres e Washington, para quem o Itamaraty teve papel secundário na negociação do acordo.

“Acho que o principal ator nesse acordo foi o Ministério da Economia, a negociação é econômica, comercial. O Itamaraty é parte desse processo, é um negociador, mas as decisões vieram do Ministério da Economia”, afirma.

Em entrevista por telefone à BBC News Brasil, Barbosa diz que o governo de Michel Temer foi responsável por resgatar as negociações com a UE, após anos de “paralisação” nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

“Foi um governo de transição e em algumas coisas não puderam avançar”, diz.

Barbosa classifica o acordo como um “marco histórico” após 20 anos de negociações – que começaram oficialmente em 1999, por iniciativa dos então presidentes francês, Jacques Chirac, e brasileiro, Fernando Henrique Cardoso.

No entanto, ele ressalta que a assinatura não é suficiente para garantir bons números à economia brasileira.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

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Mauro Bellesa/IEA

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Para Barbosa, acordo é ‘um tijolinho’ no processo de robustecer a posição comercial do Brasil no mundo

BBC News Brasil – Como vê a assinatura do acordo depois de 20 anos?

Rubens Barbosa – Acho que é um acordo histórico, um marco nas relações externas do Mercosul. É importante porque põe um fim a um longo período de isolamento do Mercosul e do Brasil nas relações comerciais. Brasil e Mercosul por 20 anos assinaram três acordos comerciais de relevância pequena, com Egito, Israel e Autoridade Palestina. Não fizemos nenhum outro acordo.

O mundo inteiro negociou 250 acordos, o Mercosul negociou esses três. Agora, esse acordo que tem mais de 20 anos de negociação foi reativado no governo Temer. Porque com Lula e Dilma, por desorganização interna, protecionismo, Argentina com Cristina Kirchner e tal, as negociações com a União Europeia ficaram paralisadas.

Com Temer, começou a haver de novo um processo de negociação. Com Temer ele não foi concluído porque era um governo de transição e em algumas coisas não puderam avançar. Com o novo governo e a nova política de abertura da economia, negociação de acordos externos, mudou o quadro. Agora esse governo finaliza as negociações superando os pontos de conflito que existiam e estavam pendentes nos últimos anos.

Não se sabe ainda as concessões feitas de lado a lado: a parte agrícola, do lado da UE, e a industrial, do lado do Brasil. Mas é um acordo muito relevante e importante e vai ter um impacto grande tanto no comércio exterior quanto nos investimentos aqui no Brasil.

BBC News Brasil – A assinatura surge em um momento de retomada do protecionismo – algo puxado principalmente pela retórica do governo Trump. Qual é o recado que estamos dando ao mundo?

Barbosa – Esse clima que existe hoje no mundo de guerra comercial pode ter até ajudado a conclusão desse acordo. A UE concluiu recentemente o acordo mais importante deles, que foi com o Japão. Agora, o segundo acordo mais importante da UE é com o Mercosul.

O clima de conflito comercial ajudou e a mensagem que os dois lados dão ao mundo é que o livre comércio, a redução do protecionismo são o mais importante. Não interessa a ninguém ampliar o protecionismo e as restrições.

BBC News Brasil – Interessa ao presidente americano, não? Esse é um recado a ele especificamente?

Barbosa – É um recado a todos que estão nessa linha. Quem lidera este processo é Trump, nessa linha de “América Primeiro”, “Tornar os EUA Grandes de Novo”. Sobretudo com essa percepção americana de que a grande ameaça à hegemonia americana é a China.

Acho que o que estamos vendo é o começo de um atrito entre EUA e China, que vai se prolongar por muitos anos na área comercial e tecnológica. A questão EUA-China é estrutural, vai vir para ficar, não vai ser superada. Agora, o resto do mundo tem que tomar providências para ampliar fatia de mercado, investimentos, independentemente do conflito entre EUA e China. Não temos que tomar partido nenhum, temos que defender os interesses do Brasil.

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EPA/OLIVIER HOSLET

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O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, e a Alta Representante da UE para Política Externa e Segurança, Federica Mogherini

BBC News Brasil – Informações preliminares indicam que o Mercosul pode ter cedido bastante em pontos-chave. No inicio dos anos 2000 o Mercosul exigia cota minima de 300 mil toneladas de carne bovina para entrada no mercado europeu. Hoje, indica-se que o valor acordado não passe de um terço disso. Qual é a importância de cotas altas ou confortáveis para setores estratégicos como o agronegócio no Brasil?

Barbosa – O Brasil conseguiu uma concessão nos produtos agrícolas de haver tarifas dentro das cotas. As cotas são uma decisão política tomada. Eu não sei que cotas foram fixadas, mas de qualquer forma, um acordo dessa magnitude não poderia ficar sujeito a cotas de carne ou suco de laranja.

O que se conseguiu foi o que foi possível hoje, dentro de uma visão maior de conseguir um acordo com o segundo parceiro econômico do Brasil. As coisas mais importantes vêm primeiro, os detalhes vêm depois. Acho que se teve cota que não atingiu o que a gente queria, a gente conseguiu outras coisas e eles também não conseguiram várias coisas que queriam do Brasil.

BBC News Brasil – E a abertura para a vinda de produtos da indústria pesada, automotiva, etc. antes gerava preocupação forte no empresariado brasileiro. Essa preocupação deve se manter agora ou o cenário mudou?

Barbosa – Não temos informação sobre a parte comercial, não vou especular. O que sei de concreto é que em um acordo de livre comércio as tarifas industriais na Europa vão ser zeradas. É uma vantagem para o Brasil.

Esse acordo comercial e outros que vierem a ser feitos vão depender muito de conseguirmos colocar a casa aqui em ordem, com as reformas, desburocratização, reforma tributária, para diminuir o custo-Brasil e aumentar a competitividade dos produtos brasileiros. Não adianta nada ter esse acordo se não tivermos competitividade para competir com os outros parceiros globais.

Isso tem que ser visto como um tijolinho dentro da perspectiva de aumento do comércio exterior, retomada da economia, redução do desemprego. É um tijolinho nessa direção, mas não vai resolver o problema da economia brasileira nem do comércio exterior brasileiro. Vai depender de nós mesmos com essas reformas.

BBC News Brasil – O senhor teve participação nas negociações?

Barbosa – Em 1992, eu era subsecretário no Itamaraty e negociei um acordo de cooperação econômica e política com a UE. Era um acordo macro, genérico, não previa especificidades, mas foi o que propiciou anos depois, em 1995, 1996, o começo da negociação deste acordo comercial. Eu estava no começo do processo todo.

BBC News Brasil – O ex-chanceler Aloysio Nunes, do governo Michel Temer, falou com a BBC News Brasil enquanto estava na pasta sobre seus esforços para fechar o acordo, como o senhor mencionou. O senhor menciona que foi um governo de transição, mas uma pedras no sapato desse governo foram os escândalos. Foi um governo marcado por sucessivos escândalos de corrupção em meio à Lava Jato, envolvendo inclusive o próprio presidente da República. Isso atrapalhou?

Barbosa – Acho que não atrapalhou nada. Não quero comentar isso. Porque a mesma coisa está acontecendo agora. Com todos, isso aconteceu com Lula, com Temer, está acontecendo agora. Tivemos ontem o negócio do avião. Mas não quero comentar isso.

BBC News Brasil – O Itamaraty no governo Bolsonaro tem recebido críticas por eventuais mudanças bruscas em suas tradições. Lê-se na imprensa estrangeira análises críticas que mencionam um encolhimento ou enfraquecimento do Itamaraty. A assinatura muda esse cenário – o que ela significa nesse contexto?

Barbosa – Acho que o principal ator nesse acordo foi o Ministério da Economia, a negociação é econômica, comercial. O Itamaraty é parte desse processo, é um negociador, mas as decisões vieram do Ministério da Economia.

BBC News Brasil – E em relação a imagem do Itamaraty?

Barbosa – Não comento.

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