Horror absoluto. A explosão ontem de uma caminhoneta que irrompeu violentamente na Escola de Cadetes da Polícia, General Francisco de Paula Santander de Bogotá, causou a morte de 21 pessoas. As autoridades falaram inicialmente de nove mortos. Em poucas horas essa horripilante cifra subiu mais que o dobro. Os feridos são 68, segundo um informe médico provisório. Horror absoluto.

A Colômbia não havia recebido um golpe terrorista dessas proporções desde 7 de fevereiro de 2003, quando as FARC fizeram um carro-bomba explodir em Bogotá, no Club El Nogal, que matou 36 pessoas e deixou mais 158 feridas.

Lançamento

O atentado de ontem indica que a Colômbia retrocedeu muito rapidamente em matéria de segurança nacional e que o “processo de paz” do ex-presidente Juan Manuel Santos foi uma grande impostura.

O Procurador Geral, Néstor Humberto Martínez, disse ontem mesmo o nome do motorista que conduziu o veículo antes de morrer na explosão. José Aldemar Rojas Rodríguez, de 56 anos, aparentemente não tinha antecedentes criminais. Fora isso, não se sabe nada de substancial. O Procurador não disse se Rojas fez parte de um movimento terrorista. Não indicou se Rojas se suicidou ou se a bomba foi ativada à distância por uma terceira pessoa. Não disse se as características da bomba abriu uma pista para os investigadores.

No momento de escrever essa nota, são poucos os elementos confirmados pela polícia. Ela deduz que a caminhoneta vinha de Arauca, pois suas revisões técnicas recentes haviam sido efetuadas nesse estado fronteiriço com a Venezuela. Afirmam que o veículo continha 80 quilos de pentolita de tipo militar, que os vigilantes da Escola de Polícia, graças a um cão farejador anti-explosivos, descobriram que a caminhoneta devia ser examinada mas que o motorista, ao ver-se descoberto, investiu contra eles e que os que trataram de detê-lo morreram quando a bomba explodiu, depois que o carro virou bruscamente à esquerda e se estourou contra um dos dormitórios dos cadetes. Uma cerimônia oficial ia ser realizada horas mais tarde nessa Escola.

Não se sabe de onde saíram os explosivos. Tampouco se a caminhoneta pôde percorrer mais de 500 quilômetros com ou sem essa carga letal sem que as forças de segurança tenham podido interceptá-la. As autoridades não disseram se a caminhoneta em questão entrou alguma vez na Venezuela.

Ante a falta de dados confirmados, os rumores crescem. Uns acreditam que Aldemar Rojas militou nas FARC, no grupo de “Grannobles”, chefe da frente que assolou o setor de Arauca. Outros dizem que Rojas poderia ser “Mocho” ou “Kiko”, um membro do ELN que havia perdido a mão direita em uma explosão.

Por sua parte, a Defensoria do Povo fez saber, depois do atentado, que ela havia lançado uma nota de alerta em 13 de dezembro passado. Segundo ela, seis grupos armados ilegais estavam se aglutinando para cometer atentados com explosivos em bairros periféricos de Bogotá. Um noticiário radial lembrou, depois do atentado, que um documento de 50 páginas do citado escritório assegura que o ELN está organizando uma “frente de guerra urbana” e que nesse projeto estariam envolvidos “desmobilizados das AUC [1] e das FARC”. Tal advertência caiu em ouvidos surdos ou propiciou investigações que não chegaram a nada?

Uma coisa é certa: o atentado de 17 de janeiro revela que existem deficiências graves nos dispositivos de segurança da Colômbia. Os terroristas provaram que podem dar golpes extremos na capital do país.

Esse atentado sangrento fecha o primeiro período do governo de Iván Duque. Sua cândida linha de “superar o clima de polarização” que o governo de Santos criou com a assinatura dos “acordos de paz” com as FARC, e sua idéia de “conseguir eqüidade” a todo preço, levou Duque a subestimar o tema da segurança. O resultado está à vista. Seu convite a “evitar a polarização” soa vazio. O país vê que o tema mais crucial para a população, a segurança, foi deixado em segundo plano.

A queda de popularidade de Iván Duque antes de completar seus primeiros 100 dias de governo foi uma advertência de que esse enfoque era errado. Privilegiar os impostos e deixar de lado a política de segurança democrática criou desconcerto na sociedade e no próprio partido que o levou à presidência, o Centro Democrático, do ex-presidente Álvaro Uribe. E o terrorismo se deslizou por essa brecha.

Outros fatores poderiam ser levados em conta ao examinar o que acaba de ocorrer.

1. A muito lenta transição da cúspide das Forças Armadas deixada por Juan Manuel Santos para uma cúspide militar renovada pelo governo de Iván Duque.

2. Duque prometeu “corrigir” os acordos de Santos com as FARC mas não fez nada nesse sentido.

3. A ainda mais lenta reorganização dos serviços de inteligência civil e militar, e de contrainteligência, ambos deixados em estado agônico pelo governo de Juan Manuel Santos.

4. A imperícia ante a existência de redes de inteligência, influência e tráfico de dinheiro sujo por conta de redes cubanas e venezuelanas, como deixou ver a expulsão sem mais de um espião venezuelano, Carlos Manuel Pino García, em 19 de dezembro passado.

5. Os altos e baixos no combate militar e judicial contra as organizações narco-terroristas mais ativas: o ELN – cujo bastião encontra-se precisamente em Arauca, embora seus chefes se escondam em território venezuelano -, como também as chamadas “dissidências das FARC”, o EPL e as Bacrim.

6. A inexistente ação contra os chefes das FARC que regressaram à clandestinidade depois de ter exercido um papel nas discussões Santos-FARC em Havana e que agora estão escondidos, sem que os serviços colombianos os tenham capturado. Entre eles figura Hernán Darío Velásquez Saldarriaga, vulgo “El Paisa”, o organizador do atentado contra o Club El Nogal. O outro é Luciano Marín Arango, vulgo “Iván Marquez”, que cinco dias antes do atentado na Escola de Cadetes General Santander enviou uma mensagem na qual gesticulou: “a paz foi traída pelo Estado Colombiano”, as FARC “se equivocaram ao entregar as armas”, e as FARC vão “pelejar para tratar de recompor as coisas”. A matança de 17 de janeiro é o primeiro passo dessa nova estratégia?

7. O imobilismo do governo ante o rumo escandaloso que toma a JEP, um pseudo-organismo de “justiça reparatória” que foi desenhado para garantir a impunidade dos chefes e demais criminosos de guerra e de lesa-humanidade das FARC.

8. O lânguido processo de reconstrução das relações diplomáticas e militares da Colômbia com os Estados Unidos. O governo de Santos instalou o mal-estar entre Bogotá e Washington por sua orientação pró-Chávez-Maduro e, sobretudo, pelo grande aumento dos cultivos ilícitos na Colômbia desde 2013.

9. O governo de Iván Duque não conseguiu instaurar um clima verdadeiramente favorável com Washington. Seu curto encontro em Cartagena com o Secretário de Estado Mike Pompeo não superou a temática habitual da “crise da Venezuela e a luta contra as drogas”, temática idêntica à tida por Duque durante seu contato com Donald Trump em Nova York, em outubro passado.

10. Enquanto isso, a Colômbia está cada vez mais ameaçada pelo ditador venezuelano Nicolás Maduro sem que Bogotá tenha feito nada para trabalhar com Washington em um tratado de defesa mútua que permita neutralizar os desequilíbrios bélicos que há entre a Colômbia e a Venezuela, sobretudo desde o momento em que Maduro faz ostentação de sua amizade com a Rússia de Putin, que enviou à Venezuela, pela segunda vez, aviões de guerra capazes de lançar armas nucleares.

11. Bogotá descuida também das relações com o novo governo do Brasil. O presidente Duque se absteve de assistir à cerimônia de posse de Jair Bolsonaro que parece ter a posição mais firme do hemisfério contra a tirania de Maduro. O Brasil é a oitava ou nona economia do mundo.

Quem poderia se afastar do clamor atual que pede que o sacrifício feito pelas 89 vítimas do atentado de ontem não acabe sendo inútil? O governo deve tomar consciência da gravidade do ocorrido e trabalhar com determinação e sem perder tempo. Quatro anos são muito pouco tempo frente à quantidade de desafios. Destruir a estrutura que realizou o atentado de ontem e restaurar a segurança do país deveria ser sua prioridade. Sem isso não há possibilidade alguma de alcançar a paz, a eqüidade e a prosperidade que Duque prometeu antes de chegar à Casa de Nariño.

Nota da tradutora:
AUC significa “Auto-defesas Unidas da Colômbia”, um grupo terrorista que foi desmantelado durante os governos do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), com a extradição para os Estados Unidos dos cabeças da organização mas que deixou remanescentes que tentam se re-organizar.
Tradução: Graça Salgueiro